Crítica: Guerra Civil
- cineexpresscompany
- Apr 21, 2024
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GUERRA CIVIL
“Uma foto vale mais que mil palavras”
Durante os últimos dias da segunda Guerra Civil dos Estados Unidos, um grupo de jornalistas tem que dirigir de Nova York até Washington, DC, para entrevistar o presidente antes de sua provável destituição do cargo e do total colapso do país.
Alex Garland é um diretor cuja pequena filmografia é altamente divisiva. Ex-Machina: Instinto Artificial (2014), seu debut na direção, é conceituado com um sci-fi de primeira linha. Mas as produções subsequentes, Aniquilação (2018) e Men: Faces do Medo (2022), foram projetos cuja repercussão gerou um descontentamento tamanho que o diretor, em declarações mais recentes, disse pensar em abandonar a carreira. Antes disso, sua última produção, Guerra Civil, chega aos cinemas como o melhor projeto de Garland até então. Poucos filmes conseguem fazer com que o espectador sinta que vivenciou a trama juntos com os protagonistas, Guerra Civil certamente é um deles. O filme é como um exercício de cardio: você sai suado e exausto.
Garland não só imerge o espectador, mas também, o elenco. Os inúmeros tiros do longa não foram acrescentados pós-produção, na verdade, foram utilizadas balas de festim, com som extremamente alto. A experiência sonora é interessantíssima também pela forma que o diretor se apropria de um recurso comum do cinema de terror: usar uma música incoerente com a cena em questão. Quase todas as cenas de batalha de Guerra Civil são embaladas por uma música popular. O desconforto é latente.
O longa, como era de se esperar, tem uma clara, óbvia e importante mensagem: a guerra é uma droga; não façam. Garland coloca essa mensagem de forma literal na boca de uma das protagonistas de Guerra Civil, Lee Smith, cuja inexpressividade de Kirsten Dunst a serve bem. Lee é uma personagem endurecida pelos seus anos de trabalho no fotojornalismo, em que teve de ser uma espectadora passiva das piores tragédias da humanidade. Ela perdeu a fé na relevância do seu trabalho, visto que o aviso que ela deu por todos esses anos, não foi ouvido. Ao longo da viagem, ela conhece mais de Jessie, uma jovem que a idolatra e deseja seguir seus passos como fotógrafa. Jessie tem a inocência e o frescor da juventude, como Lee tinha quando começou na carreira. Ver Jessie amadurecer ao longo da jornada é um golpe duro, pois o choque dela com o horror da guerra, é também o do espectador: e Speany interpreta essa jornada com louvor.
Wagner Moura, outro grande nome do elenco, inunda a tela com carisma, mesmo nos momentos onde está no fundo da tela conversando com outro personagem. É interessante como ele atua de maneira a aliviar um pouco a tensão da trama, e, a partir de uma cena específica do segundo ato, o personagem entra numa espiral de amargor tão, ou até mesmo maior do que a de Lee.
Garland quer esmiuçar através de seu filme o dilema do fotojornalismo. É claro que para tal, é necessário uma suspensão da descrença. Da mesma maneira que maestros e músicos se divertiram com as incoerências da regência de Bradley Cooper, fotojornalistas provavelmente se divertirão com o modus operandi completamente irreal dos personagens de Guerra Civil. “Não fazemos questões, nós apenas retratamos a situação e deixamos que o público faça as perguntas”, dizem eles, mas é o que Garland quer fazer com seu espectador. O diretor atinge o público repetidamente com imagens profundamente perturbadoras das coisas terríveis que cidadãos armados fazem uns aos outros, sem necessariamente explicar a eles seus motivos. Garland dá mais poder à imagem do que ao texto. Há um plano logo nos primeiros 10 minutos onde os personagens são atingidos por uma bomba. Jessie, está visivelmente ferida ao lado de um carro da polícia, com o slogan da polícia posicionado bem ao lado dela: “Cortesia. Profissionalismo. Respeito.” É tudo o que não há nos 120 minutos de Guerra Civil, ou na sociedade em geral.
Garland, que é inglês, evita declarações políticas, apenas citando a Califórnia e o Texas unidos como as “Forças Ocidentais” em uma secessão. Os espectadores não sabem exatamente o que levou à guerra e nenhuma ideologia é compartilhada com o público. e longe, pode parecer uma isenção, mas, na verdade, Garland remete de maneira ironicamente inteligente a um dos princípios do jornalismo: imparcialidade. Dessa forma, a narrativa desta ampla Guerra Civil parece realmente uma fotografia de guerra: mostrando apenas um pequeno momento de uma história muito maior.




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